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Coparentalidade virtual, uma nova configuração familiar

Postado em: 02/04/2013, às 13:18 por Breno Rosostolato

A web vem revolucionando a maneira como as pessoas obtêm informações sobre tudo e todos. A internet não só propicia formas muito particulares de relacionamentos, como cria novas reflexões sobre o mundo e o comportamento do ser humano.

Estamos mais críticos e fiscalizamos com mais atenção, porque o acesso às informações está bem mais fácil. Os pensamentos se modificam e, alicerçadas a isso, as pessoas se permitem novas experiências, rompem tabus e estão fazendo escolhas antes inimagináveis. Amor e sexo são dois fenômenos sociais que não se baseiam só no afeto ou só no prazer. São aspectos que requerem praticidade e mais desenvoltura.

O sexo casual já é uma realidade. Os desejos são vividos com mais liberdade. A autonomia é a base das escolhas individuais e, com isso, alguns conceitos e regras antigas necessitam ser atualizados.

Isso acontece, por exemplo, com a concepção dos filhos e a obrigatoriedade de um vínculo amoroso entre os pais, o casamento e a instituição familiar.

O casamento no século XII era visto como negócio. Era uma maneira de as famílias ampliarem suas terras, enriquecer por conta do casamento dos filhos. Diga-se de passagem, o matrimônio só acontecia se os interesses financeiros mútuos dos pais dos noivos fossem concretizados.

O amor não era um sentimento importante para fazer parte das relações amorosas nessa época. O casamento não possuía laço afetivo e o amor era compulsório.

É com o advento do amor romântico, uma relação romanceada, que se internaliza o conceito de exclusividade e, portanto, casar significa viver ao lado do outro. Uma relação que implica exclusividade, mas que gera também a noção de posse do companheiro. O amor experimentado nestas condições causa idealizações que, na maioria das vezes, não são correspondidas.

Ao que tudo indica, a internet ajuda na reconfiguração das famílias e do casamento. Sites estão surgindo para promover parcerias de paternidade. Sites como “PollenTree“, “Coparents“, “Co-ParentMatch“, “MyAlternativeFamily“, “Modamily” e “FamilybyDesign” surgem com o intuito de favorecer o encontro entre pessoas que procuram um novo tipo de arranjo familiar, mais conhecido como “parceria de paternidade”.

Pessoas que querem ter filhos sem estabelecer vínculos amorosos não buscam o amor, mas desejam, acima de tudo, ser pais. Enquanto alguns escolhem ser pais solteiros, para outras pessoas a solidão é muito angustiante e não é positiva para elas ou para a criança. Veem nesses sites a possibilidade de apoio compartilhado para se ter e criar um filho.

A procura por esses sites cresceu significativamente desde 2011. Eles são buscados tanto por heterossexuais como por homossexuais. A maioria dos participantes desses portais é composta por mulheres, entre 30 e 45 anos, que decidiram primeiro investir na profissão para só mais tarde pensar em engravidar. Mas homens também demonstram interesse nessa possibilidade.

O usuário precisa se cadastrar, criar um perfil e dizer como gostaria de criar um filho. Uma outra pessoa, caso se interesse, inicia uma conversa e ambos decidem como vão engravidar, criar e educar esse filho. Quando a criança nasce, os pais têm sobre ela o poder familiar.

Essa configuração familiar é conhecida como “Coparentalidade”. Dessa maneira, duas pessoas podem compartilhar os cuidados e a educação de uma criança sem, necessariamente, estabelecerem vínculo amoroso ou ter que morar juntos. Existe uma família nessas condições, e que se afasta da concepção tradicional. A coparentalidade é uma forma antiga de se criar os filhos e abre também a possibilita para homossexuais que desejam ser pais ou mães.

Os defensores da coparentalidade por meio do vínculo entre os candidatos a pais em sites da internet defendem que a criança é a maior beneficiada. Pessoas ponderam antecipadamente como querem e com quem querem ter um filho. Levando-se em conta que essa antecipação não prevê todas as implicações geradas por um relacionamento desse tipo, refletem a favor de uma organização que muitos casais tradicionais não possuem, pois, muitas vezes, o filho é fruto do imediatismo do casamento e das imposições sociais.

Esse formato de coparentalidade seria uma alternativa menos constrangedora e conflituosa do que em casos da barriga de aluguel ou inseminação artificial.

Esse filho deve ser atendido, acolhido e educado com a presença e participação desses pais, independentemente de eles morarem juntos ou não, com vínculo afetivo ou não. A diferença dessa configuração familiar em nada deve comprometer o desenvolvimento da criança.

O desejo da maternidade e da paternidade deve ser o alicerce para a decisão de se ter um filho nas condições da coparentalidade,  e os dois precisam superar as dificuldades inerentes dessa escolha.

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Breno Rosostolato é psicólogo e professor da Faculdade Santa Marcelina – FASM.

Clique aqui e acesse o artigo original.

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Data : 02 abr 2013

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